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quarta-feira, 4 de junho de 2008

COMO SURGIU A UMBANDA


Dedicar integralmente o tempo das sessões ao atendimento aos necessitados, Zélio Fernandino de Morais, médium que recebeu o Caboclo das Sete Encruzilhadas, o fundador da Umbanda no Brasil, desencarnou em outubro de 1975, aos 84 anos de idade. De seu trabalho incansável resultou a umbanda de hoje, que é sem dúvida, a religião que mais cresce no Brasil.




Da atitude de Zélio de Moraes que, incorporado, declarou estar “faltando uma flor” , na mesa da Federação Espírita de Niterói, surgiu uma das curimbas (pontos cantados) mais belas da umbanda, que diz:



“Surgiu no jardim mais uma flor,
Mamãe Oxum trazendo paz e amor.
Que vai crescendo, pôr este imenso Brasil.
Bandeira branca de Oxalá, força do além,
Mãe caridosa que ao mundo deseja o bem...
vai sempre em frente em frente ,
ó minha umbanda querida,
leva a doçura da vida para aqueles que não têm !....”


Em fins de 1908, uma família tradicional de Neves, Estado do Rio de Janeiro, foi surpreendida pôr uma ocorrência que tomou aspecto sobrenatural: o jovem Zélio Fernandino de Moraes, que fora acometido de estranha paralisia, que os médicos não conseguiam debelar, certo dia ergueu-se do leito e disse “Amanhã estarei curado”.

No dia seguinte, levantou-se normalmente e começou a andar, como se nada, antes, lhe houvesse tolhido os movimentos. Contava apenas dezessete anos e destinava-se a carreira militar na marinha.

A medicina não soube explicar o que tinha ocorrido. Os tios, que eram padres católicos, foram colhidos de surpresa e nada disseram sobre a misteriosa ocorrência.

Um amigo da família sugeriu, então, uma visita à Federação Espírita de Niterói, presidida por José de Souza, na época. No dia 15 de novembro de 1908, o jovem Zélio foi convidado a participar de uma sessão e o dirigente dos trabalhos determinou que ele ocupasse um lugar à mesa.

Tomado por uma força estranha e superior a sua vontade, contrariando as normas que impediam o afastamento de qualquer dos componentes da mesa, o jovem Zélio levantou-se e disse:

- Aqui está faltando uma flor!, e retirou-se da sala. Pouco depois, voltou trazendo uma rosa, que depositou no centro da mesa.

Essa atitude insólita causou quase um tumulto. Restabelecida a “corrente”, manifestaram-se espíritos, que se diziam de pretos escravos e de índios ou caboclos, em diversos, médiuns. Esses espíritos foram convidados a se retirar pelo presidente dos trabalhos, advertidos do seu atraso espiritual.

Foi então que o jovem Zélio foi novamente dominado por uma força estranha, que fez com que ele falasse sem saber o que dizia (De acordo com depoimento do próprio à revista Seleções de Umbanda, em 1975.).

Zélio ouvia apenas a sua própria voz perguntar o motivo que levava os dirigentes dos trabalhos a não aceitarem a comunicação desses espíritos e pôr que eram considerados atrasados, se apenas pela diferença de cor ou de classe social que revelaram ter tido na sua ultima encarnação. Seguiu-se um diálogo acalorado, e os responsáveis pela mesa procuraram doutrinar e afastar o espírito desconhecido, que estaria incorporado em Zélio e desenvolvia um argumentação segura.

Um dos médiuns videntes perguntou , afinal:

- Porque o irmão fala nesses termos, pretendendo que esta mesa aceite a manifestação de espíritos que pelo grau de cultura que tiveram, quando encarnados são claramente atrasados? E qual é o seu nome irmão?

Respondeu Zélio , ainda tomado pela força misteriosa:

- Se julgam atrasados esses espíritos dos pretos e dos índios, devo dizer que amanhã estarei em casa deste aparelho (o médium Zélio) para dar início a um culto em que esses pretos e esses índios poderão dar a sua mensagem e, assim, cumprir a missão que o plano espiritual lhes confiou. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos encarnados e desencarnados. E, se querem saber o meu nome, que seja este: “Caboclo das Sete Encruzilhadas”, porque não haverá caminhos fechados para mim.

O vidente interpelou a Entidade dizendo que ele se identificava como um caboclo mas que via nele restos de trajes sacerdotais.

O espírito respondeu então:

- O que você vê em mim são restos de uma existência anterior. Fui padre e meu nome era Gabriel Malagrida. Acusado de bruxaria fui sacrificado na fogueira da Inquisição em Lisboa, no ano de 1761. Mas em minha última existência física, Deus concedeu-me o privilégio de nascer como caboclo brasileiro.

- Julga o irmão que alguém irá assistir ao seu culto?, perguntou, com ironia, o médium vidente; ao que o caboclo das sete encruzilhadas respondeu:

- Cada colina de Niterói atuará como porta-voz, anunciando o culto que amanhã iniciarei!

Zélio de Morais contou que no dia seguinte, 16 de novembro, ocorreu o seguinte:

- Minha família estava apavorada. Eu mesmo não sabia explicar o que se passava comigo. Surpreendia-me haver dialogado com aqueles austeros senhores de cabeça branca, em volta de uma mesa onde se praticava para mim um trabalho desconhecido.

Como poderia, aos dezessete anos, organizar um culto? No entanto eu mesmo falara, sem saber o que dizia e por que dizia. Era uma sensação estranha: uma força superior que me impelia a fazer e a dizer o que nem sequer passava pelo meu pensamento.

- E, no dia seguinte em casa de minha família, na Rua Floriano Peixoto, 30, em Neves, ao se aproximar a hora marcada, 20 horas, já se reuniam os membros da Federação Espírita, seguramente para comprovar a veracidade dos fatos que foram declarados na véspera, os parentes mais chegados, amigos, vizinhos e, do lado de fora, grande número de desconhecidos.

Às 20 horas, manifestou-se o Caboclo das Sete Encruzilhadas. Declarou que se iniciava naquele momento, um novo culto em que os espíritos de velhos africanos, que haviam servido como escravos e que, desencarnados, não encontravam campo de ação nos remanescentes das seitas negras, já deturpadas e dirigidas quase exclusivamente para trabalhos de feitiçaria, e os índios nativos de nossa terra poderiam trabalhar em benefício dos seus irmãos encarnados, qualquer que fosse o credo e a condição social. A prática da caridade, no sentido do amor fraterno, seria a característica principal desse culto, que teria pôr base o Evangelho de Cristo e, como Mestre Supremo Jesus.

O Caboclo estabeleceu as normas em que se processaria o culto: sessões, assim se chamariam os períodos de trabalho espiritual, diárias das 20 às 22 horas, os participantes estariam uniformizados de branco e o atendimento seria gratuito.

Deu, também, o nome desse movimento religioso que se iniciava; disse primeiro allabanda (ou um dos presentes assim anotou), mas considerando que não soava bem a sua vibratória, substituiu-o por Aumbanda, ou seja, Umbanda, palavra de origem sânscrita que se pode traduzir por “Deus ao nosso lado”, ou “o lado de Deus”.

Muito provavelmente, ficou o nome umbanda, e não Aumbanda, porque alguém anotou a palavra separadamente (a umbanda).

A casa de trabalhos espirituais, que no momento se fundava, recebeu o nome de Nossa Senhora da Piedade, porque assim como Maria acolhe o Filho nos braços, também seriam acolhidos, como filhos, todos os que necessitassem de ajuda ou de conforto.

Ditadas as bases do culto, após responder, em latim e em alemão às perguntas dos sacerdotes ali presentes, o Caboclo das Sete Encruzilhadas passou á parte pratica dos trabalhos, curando enfermos, fazendo andar aleijados. Antes do término da sessão, manifestou-se um preto velho. Pai Antônio, que vinha completar as curas.

Segundo o jornal Gira de Umbanda (nº 19 “As Verdadeiras origens da Umbanda do Brasil”), foi esse guia quem ditou o ponto hoje cantado no Brasil inteiro

“Chegou, chegou, chegou, com Deus ,
chegou, chegou
o Caboclo das Sete Encruzilhadas”.

Nos dias seguintes, verdadeira romaria se formou na Rua Floriano Peixoto, n.º 30, em Neves. Enfermos, cegos, paralíticos, vinham em busca de cura e ali encontravam , em nome de Jesus. Médiuns (cuja manifestações haviam sido consideradas loucuras) deixaram os sanatórios e deram provas de suas qualidades excepcionais. Estava fundada a umbanda no Brasil. 15 de novembro de serie posteriormente, dia nacional da umbanda .

Cinco anos mais tarde, manifesta-se o orixá Malé exclusivamente para a cura de obsedados e o combate aos trabalhos de magia negra (obs. Orixá, na realidade não incorpora, apenas manda sua vibração à terra, é comum no estado do Rio, trata-se de um guia espiritual pela denominação do orixá segundo Ivone Mangie Alves Velho, em seu livro Guerra de Orixá).

Dez anos após a fundação da Tenda Nossa Senhora da Piedade (registrada como tenda Espírita, porque não era aceito na época, o registro de uma entidade com especificação de umbanda), o Caboclo das Sete Encruzilhadas declarou que iniciava a segunda parte de sua missão: a criação de sete templos, que seriam o núcleo do qual se propagaria a religião da Umbanda.

Em 1935, estavam fundados os sete templos idealizados pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas , sendo curiosa a fundação do sétimo, que receberia o nome de Tenda São Gerônimo (a casa de Xangô). Faltava um dirigente adequado ao mesmo, quando numa noite de quinta feira, José Álvares Pessoa, espírita e estudioso de todos os ramos do espiritualismo, não dando muito crédito ao que lhe relatavam sobre as maravilhas ocorridas em Neves, resolveu verificar pessoalmente o que se passava.

Logo que assomou à porta da sala em que se reuniam os discípulos do Caboclo das Sete Encruzilhadas, este interrompeu a palestra e disse:

- Já podemos fundar a Tenda São Jerônimo. O seu dirigente acaba de chegar.

O Sr. Pessoa ficou muito surpreso, pois era desconhecido no ambiente. Não anunciara a sua visita e viera apenas verificar a veracidade do que lhe narravam. Após breve diálogo em que o Caboclo das Sete Encruzilhadas demonstrou conhecer a fundo o visitante, José Álvares Pessoa assumiu a responsabilidade de dirigir o último dos sete templos que a entidade criava.

Dezenas de templos e tendas, porém, seriam criados posteriormente, sob a orientação direta ou indireta do Caboclo das Sete Encruzilhadas. Em 1939, o Caboclo das Sete Encruzilhadas determinou que se fundasse uma federação (que posteriormente passou a à denominação de União Espírita de Umbanda do Brasil, segundo relata Seleções de Umbanda n.º 7 1975) , para congregar templos Umbandistas e que deveria seu o núcleo central desse culto , em que o simples uniforme branco de algodão, dos médiuns estabelecia a igualdade de classes e a simplicidade do ritual permitia.

O CENTRO ESPÍRITA NA VISÃO DE CHICO XAVIER


Humberto Vasconcelos

"Os centros espíritas devem ser locais de oração, trabalho e estudo. Conhecer o Espiritismo é de fundamental importância, mas, segundo Emmanuel me tem ensinado, esse conhecimento necessita ser traduzido na prática, a começar pelo entendimento entre os companheiros que constituem a equipe de cooperadores da casa. O fenômeno em um tempo de orientação kardecista deve ser acessório e, nunca, sem dúvida, atividade especial".

"Para mim, centro espírita tinha que abrir todo dia, o dia inteiro... Se é hospital, como dizemos, como é que pode estar de portas fechadas?... O centro precisava se organizar para melhor atender os necessitados. O que impede que o centro espírita seja mais produtivo é a centralização das tarefas; existe dirigente que não abre mão do comando da instituição... Ora, de fato, a instituição necessita de comando, mas de um comando que se preocupe em criar espaço para que os companheiros trabalhem, sem que ninguém esteja mais preocupado com cargos do que com encargos..."

"O centro espírita, quanto mais simples, quanto mais humilde, mais reduto do Evangelho. Construções colossais sempre me parecem destituídas de espírito... A Sociedade Espírita de Paris era uma sala de acanhada dimensões: ali imperava o espírito de fraternidade".

"As reuniões nos centros espíritas poderiam ser mais produtivas. Existe dirigente que abre e termina a sessão olhando o relógio... Não posso dar palpite no centro dos outros - Emmanuel me mandaria conservar a boca fechada -, mas a gente fica triste com os centros espíritas que funcionam apenas meia hora durante a semana...

"Não precisamos esperar a formação de um grupo espírita para recepção de pessoas santas; vão chegar primeiro os mais infelizes; vão contar as mágoas, à vezes até os seus crimes; vêm em busca de amor..."

"Não somos donos do Movimento, a casa espírita não tem donos... Vamos criar oportunidade para o crescimento dos outros. Ninguém precisa anular ninguém... Sobra espaço para as estrelas no firmamento! Todas podem brilhar à vontade...

"Se um amigo, ou os amigos, não têm paciência conosco, os grupos não prosperam, não frutificam em amor, em esperança, no socorro espiritual.. ."

"O centro espírita deve ser tocado como uma escola, ou seja, devemos estar dentro dele para aprender... Não é só para a mediunidade, para o passe ou para a desobsessão.. . Precisamos estudar as lições de Jesus, nas interpretações de Allan Kardec, e vivenciá-las, cuidando de nós mesmos, de nossa necessária renovação íntima..."

Pesquisa publicada no Jornal Espírita de Pernambuco, edição nº 72

-Sempre me pareceu que nós, a maioria das pessoas, desconhecemos a imensa força do pensamento na formulação da existência. O pensamento pode reformular a vida de uma pessoa?

Chico Xavier - Sem dúvida. Os benfeitores espirituais são unânimes em asseverar que toda renovação do espírito, em qualquer circunstância, começa na força mental. O pensamento é a força criadora nas menores manifestações.

EGOÍSMO

Havia uma garota cega, que se odiava pelo fato de ser cega! Ela também odiava a todos, menos ao seu namorado!

Ele descrevia a ela todas as belezas do nosso mundo... Auxiliava ela em tudo... Estava sempre, mas sempre, por perto... Muito presente!!!

Um dia ela disse que se pudesse ver o mundo, a primeira coisa que ela faria, seria se casar com ele...

Em um dia de sorte, alguém doou um par de olhos a ela! Tão grande era sua felicidade!! ! Estava louca para conhecer seu namorado, que de costas, a esperava sentado... Quando ela se aproximou, ele lhe perguntou:

- Agora que você pode ver você se casará comigo???

A garota estava chocada... Só agora ela percebeu que seu namorado era cego! Ela disse:

- Eu sinto muito, mas nao posso me casar com você, porque você é cego! Eu nunca imaginei isso... nossa vida seria complicada, difícil... Pra mim e para você!!!

O namorado nada fez apenas virou as costas e foi embora, cabisbaixo.. . Então se virou para trás e disse:

- 'Por favor, apenas cuide bem de MEUS OLHOS!!!'

Moral da História: O egoísmo é o pior caminho a escolher... Você não perde só as pessoas que lhe amam... e que fariam de tudo por você... Mas perde também seu coração...

Dizem por aí que a Umbanda não é caridade! Que é normal se cobrar pelas palavras amigas de um Preto-Velho, pela energia revigorante de um Caboclo, pela pureza de uma Criança ou pela proteção de um Exú. Que devemos cobrar pelo que nos foi dado gratuitamente.

A mediunidade é um dom, mais que um dom, um presente divino. Uma forma de atingir o coração das pessoas mais necessitadas e lhes encher de carinho e segurança.

Afinal, a Umbanda também é amor! Amor pelos encarnados e pelos desencarnados.

Amor por ajudar aos necessitados. Amor pela caridade, pois a Umbanda é acima de tu-
do amor pela caridade!

Desde que foi revelada pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, a caridade foi colocada como alicerce da Umbanda. Pois a Umbanda é louvação à Deus. E Deus é amor e caridade. E todas as entidades que estiverem dispostas a trabalhar em prol da humanidade terão seu lugar em um verdadeiro terreiro de Umbanda. Afinal, a Umbanda é serviço prestado ao próximo, é se esquecer do orgulho humano e aprender a ser humilde. Aprender a respeitar o sofrimento alheio como se fosse o nosso próprio sofrimento.

Ser Umbandista é ter sempre o coração aberto ao novo. Pois a Umbanda é filha do preconceito, e na Umbanda não se deve existir discriminação. Somos todos iguais! Em gênero, cor (todos somos da raça humana) e classe social!

Na Umbanda não há distinção entre os encarnados e nem entre os desencarnados. Afinal, somos todos filhos de Deus. E todos merecemos ser tratados com amor e dedicação.

Na Umbanda todos temos o direito de buscar e obter o auxílio necessário para nossa evolução. Pois evoluir é necessário. E não há meio melhor de se evoluir do que coma prática da caridade, do que sendo caridoso. Como diz Pai Pery, “fazer caridade é importante,ser caridoso com o irmão é essencial”. Ser Umbandista é ser caridoso!

Então meus irmãos, não se iludam! Não se deixem enganar por quem diz que devemos pagar para obter auxílio em um terreiro de Umbanda. Não se deixem enganar por quem diz que a Umbanda é uma fábrica de desejos e lhes promete tudo com prazos. Pois a Umbanda, também é merecimento.

Seja caridoso meu irmão, e então serás Umbandista. Umbandista de corpo, alma, mente e coração.

Umbandista a serviço da caridade.

Matheus Zanon Figueira
Centro Espiritualista Caboclo Pery
Niterói-RJ

terça-feira, 3 de junho de 2008

TRISTEZA DOS ORIXÁS



T
RISTEZA DOS ORIXÁS

Foi, não há muito tempo atrás, que essa história aconteceu.
Contada aqui de uma forma romanceada, mas que trás em sua
essência, uma verdadeira mensagem para os umbandistas…

Ela começa em uma noite escura e assustadora, daquelas de arrepiar os
pelos do corpo. Realmente o Sol tinha se escondido nesse dia, e a Lua,
tímida, teimava em não iluminar com seus encantadores raios,
brilhosos como fios de prata, a morada dos Orixás. Nessa estranha
noite, Ogum, o Orixá das "guerras", saiu do alto ponto onde
guarda todos os caminhos e dirigiu – se ao mar. Lá chegando, as
sereias começaram a cantar e os seres aquáticos agitaram – se.
Todos adoravam Ogum, ele era tão forte e corajoso. Iemanjá que em
nele um filho querido, logo abriu um sorriso, aqueles de mãe
"coruja" quando revê um filho que há tempos partiu de sua
casa, mas nunca de sua eterna morada dentro do coração:
_Ah Ogum, que saudade, já faz tanto tempo! Você podia vir visitar
mais vezes sua mãe, não é mesmo? _ ralhou Iemanjá, com aquele tom
típico de contrariedade.

_Desculpe, sabe, ando meio ocupado
_ Respondeu um triste Ogum.

_Mas, o que aconteceu? Sinto que estás triste.

_É, vim até aqui para "desabafar" com você
"mãezinha". Estou cansado! Estou cansado de muitas coisas que
os encarnados fazem em meu nome. Estou cansado com o que eles fazem
com a "espada da Lei" que julgam carregar. Estou cansado de tanta
demanda. Estou muito mais cansado das "supostas" demandas, que apenas
existem dentro do íntimo de cada um deles… Estou
cansado…

Ogum retirou seu elmo, e por de trás de seu bonito capacete, um rosto
belo e de traços fortes pôde ser visto. Ele chorava. Chorava uma
dor que carregava há tempos. Chorava por ser tão mal compreendido
pelos filhos de Umbanda. Chorava por ninguém entender, que se ele era
daquele jeito, protetor e austero, era porque em seu peito a chama da
compaixão brilhava.
E, se existe um Orixá leal, fiel e companheiro, esse Orixá é Ogum.
Ele daria a própria Vida, por cada pessoa da humanidade, não apenas
pelos filhos de fé.
Não! Ogum amava a humanidade, amava a Vida. Mas infelizmente suas
atribuições não eram realmente entendidas. As pessoas não viam em sua
espada, a força que corta as trevas do ego, e logo a transformavam em
um instrumento de guerra. Não vinham nele a potência e a força de
vencer os abismos profundos, que criam verdadeiros vales de trevas na
alma de todos. Não vinham em sua lança, à direção que aponta para o
autoconhecimento, para iluminação interna e eterna. Não! Infelizmente
ele era entendido como o "Orixá da Guerra", um homem impiedoso que
utiliza–se de sua espada para resolver qualquer situação.

E logo, inspirados por isso, lá iam os filhos de fé esquecer os
trabalhos de assistência a espíritos sofredores, a almas perdidas
entre mundos, aos trabalhos de cura, esqueciam do amor e da
compaixão, sentimentos básicos em qualquer trabalho espiritual,
para apenas realizaram "quebras e cortes" de demandas, muitas
das quais nem mesmo existem, ou quando existem, muitas vezes são
apenas reflexos do próprio estado de espírito de cada um. E mais,
normalmente, tudo isso torna–se uma guerra de vaidade, um show
"pirotécnico" de forças ocultas. Muita "espada",
muito "tridente", muitas "armas", pouco coração,
pensamento elevado e crescimento espiritual. Isso magoava Ogum. Como
magoava:

_Ah, filhos de Umbanda, por que vocês esquecem que Umbanda é pura e
simplesmente amor e caridade? A minha espada sempre protege o justo,
o correto, aquele que trabalha pela luz, fiando seu coração em Olorum.
Por que esquecem que a Espada da Lei só pode ser manuseada pela
mão direita do amor, insistindo em empunhá-la com a mão
esquerda da soberba, do poder transitório, da ira, da ilusão,
transformando– a em apenas mais uma espada semeadora de tormentos e
destruição.

Então, Ogum começou a retirar sua armadura, que representava a
proteção e firmeza no caminho espiritual que esse Orixá traz para
nossa vida. E totalmente nu ficou frente à Iemanjá. Cravou sua
espada no solo. Não queria mais lutar, não daquele jeito. Estava
cansado… Logo um estrondo foi ouvido e o querido, mas também
temido Tatá Omulu apareceu. E por incrível que pareça o mesmo
aconteceu. Ele não agüentava mais ser visto como uma divindade da
peste e da magia negativa. Não entendia como ele, o guardião da Vida
podia ser invocado para atentar contra Ela. Magoava–se por sua
falange da morte, que é o princípio que a tudo destrói, para que então
a mudança e a renovação aconteçam ser tão temida e mal
compreendida pelos homens. Ele também deixou sua Falange aos pés
de Iemanjá, e retirou seu manto escuro como a noite. Logo via–se
o mais lindo dos Orixás, aquele que usa uma cobertura para não cegar
os seus filhos com a imensa luz de amor e paz que se irradia de todo
seu ser. A luz que cura, a luz que pacifica aquela que recolhe todas
as almas que se perderam na senda do Criador. Infelizmente os filhos
de fé esquecem disso… Mas o mais incrível estava por acontecer. Uma
tempestade começou a desabar aumentando ainda mais o aspecto
incrível e tenebroso daquela estranha noite. E todos os outros
Orixás começaram a aparecer, para logo, começarem também a
despir suas vestimentas sagradas, além de deixarem ao pé de
Iemanjá suas armas e ferramentas simbólicas. Faziam isso em
respeito a Ogum e Omulu, dois Orixás muito mal compreendidos pelos
umbandistas. Faziam isso por si próprios. Iansã queria que as
pessoas entendessem que seus ventos sagrados são o sopro de Olorum,
que espalha as sementes de luz do seu amor. Oxossi queria ser
reverenciado como aquele que, com flechas douradas de conhecimento,
rasga as trevas da ignorância. Egunitá apagou seu fogo encantador,
afinal, ninguém se lembrava da chama que intensifica a fé e a
espiritualidade. Apenas daquele que devora e destrói. Os vícios
dos outros, é claro. Um a um, todos foram despindo–se e pensando
quanto os filhos de Umbanda compreendiam erroneamente os Orixás.
Iemanjá, totalmente surpresa e sem reação, não sabia o que
fazer. Foi quando uma irônica gargalhada cortou o ambiente. Era Exu.
O controvertido Orixá das encruzilhadas, o mensageiro, o guardião,
também chegava para a reunião, acompanhado de Pombagira, sua
companheira eterna de jornada. Mas os dois estavam muito diferentes
de como normalmente
apresentam–se. Andavam curvados, como que segurando um grande peso
nas costas. Tinham na face, a expressão do cansaço. Mas, mesmo assim,
gargalhavam muito.
Eles nunca perdiam o senso de humor!E os dois
também repetiram aquilo que todos os Orixás foram fazer na casa de
Iemanjá. Despiram–se de tudo. Exu e Pombagira, sem dúvida,
eram os que mais razões tinham de ali estarem. Inúmeros eram os
absurdos cometidos por encarnados em nome deles. Sem contar o
preconceito, que o próprio umbandista ajudou a criar, dentro da
sociedade, associando–o a figura do Diabo:

_ Hahaha, lamentável essa situação, hahaha, lamentável!

_ Exu chorava, mas Exu continuava a sorrir. Essa era a natureza desse
querido Orixá. Iemanjá estava desesperada! Estavam todos lá,
pedindo a ela um conforto. Mas nem mesmo a encantadora Rainha do Mar
sabia o que fazer:

Espere! _ pensou Iemanjá!_ Oxalá, Oxalá não está aqui!
Ele com certeza saberá como resolver essa situação. E logo
Iemanjá colocou–se em oração, pedindo a presença daquele
que é o Rei entre os Orixás. Oxalá apresentou–se na frente
de todos. Trazia seu opaxorô, o cajado que sustenta o mundo. Cravou
ele na Terra, ao lado da espada de Ogum. Também despiu – se de
sua roupa sagrada, pra igualar–se a todos, e sua voz ecoou pelos
quatro cantos do Orun:

_ Olorum manda uma mensagem a todos vocês meus irmãos queridos!
Ele diz para que não desanimem, pois, se poucos realmente os
compreendem, aqueles que assim o fazem, não medem esforços para
disseminar essas verdades divinas. Fechem os olhos e vejam, que mesmo
com muita tolice e bobagem relacionada e feita em nossos nomes, muita
luz e amor também está sendo semeado, regado e colhido, por mãos de
sérios e puros trabalhadores nesse às vezes triste, mas abençoado
planeta Terra. Esses verdadeiros filhos de fé que lutam
por uma Umbanda séria, sem os absurdos que por aí acontecem. Esses
que muito além de "apenas" prestarem o socorro espiritual, plantam as
sementes do amor dentro do coração de milhares de pessoas. Esses que
passam por cima das dificuldades materiais, e das pressões
espirituais, realizando um trabalho magnífico, atendendo milhares na
matéria, mas também, milhões no astral, construindo verdadeiras
"bases de luz" na crosta, onde a espiritualidade e religiosidade
verdadeira irão manifestar-se. Esses que realmente nos compreendem e
buscam – nos dentro do coração espiritual, pois é lá que o
verdadeiro Orun reside e existe. Esses incríveis filhos de umbanda,
que não colocam as responsabilidades da vida deles em nossas costas,
mas sim, entendem que tudo depende exclusivamente deles mesmos. Esses
fantásticos trabalhadores anônimos, soltos pelo Brasil, que honram e
enchem a Umbanda de alegria, fazendo a filhinha mais nova de Olorum
brilhar e sorrir…

Quando Oxalá calou – se os Orixás estavam mudados. Todos eles
tinham suas esperanças recuperadas, realmente viram que se poucos os
compreendiam grande era o trabalho que estava sendo realizado, e
talvez, daqui algum tempo, muitos outros se juntariam nesse ideal. E
aquilo alegrou – os tanto que todos começaram a assumir suas
verdadeiras formas, que são de luzes fulgurantes e indescritíveis. E
lá, do plano celeste, brilharam e derramaram–se em amor e compaixão
pela humanidade.

Em Aruanda, os caboclos, pretos – velhos e crianças, o mesmo
fizeram. Largaram tudo, também se despiram e manifestaram sua
essência de luz, sua humildade e sabedoria comungando a benção dos
Orixás. Na Terra, baianos, marinheiros, boiadeiros, ciganos e todos
os povos de Umbanda, sorriam. Aquelas luzes que vinham lá do alto os
saudavam e abençoavam seus abnegados e difíceis trabalhos. Uma
alegria e bem–aventuranç a incríveis invadiram seus
corações. Largaram as armas. Apenas sorriam e abraçavam – se.
O alto os abençoava…

Mas, uma ação dos Orixás nunca fica limitada, pois é divina,
alcançando assim, a tudo e a todos. E lá no baixo astral, aqueles
guardiões e guardiãs da lei nas trevas também foram
alcançados pelas luzes Deles, os Senhores do Alto. Largaram as armas,
as capas, e lavaram suas sofridas almas com aquele banho de luz.
Lavaram seus corações, magoados por tanta tolice dita e cometida em
nome deles. Exus e Pombagiras, naquele dia foram tocados pelo amor
dos Orixás, e com certeza, aquilo daria força para mais muitos
milênios de lutas insaciáveis pela Luz.
Miríades de espíritos foram retirados do baixo – astral, e
pela vibração dos Orixás puderam ser encaminhados novamente à
senda que leva ao Criador.

E na matéria toda a humanidade foi abençoada. Aos tolos que pensam
que Orixás pertencem a uma única religião ou a um povo e
tradição, um alerta. Os Orixás amam a humanidade inteira, e por
todos olham carinhosamente. Aquela noite que tinha tudo para ser uma
das mais terríveis de todos os tempos, tornou – se benção na vida
de todos. Do alto ao embaixo, da esquerda até a direita, as
egrégoras de paz e luz deram as mãos e comungaram daquele presente
celeste, vindo diretamente do Orun, a morada celestial dos Orixás.

Vocês, filhos de Umbanda, pensem bem! Não transformem a Umbanda em um
campo de guerra, onde os Orixás são vistos como "armas" para vocês
acertarem suas contas terrenas. Muito menos se esqueçam do amor e
compaixão, chaves de acesso ao mistério de qualquer um deles. Umbanda
é simples, é puro sentimento,
alegria e razão.
Lembrem – se disso. E quanto a todos aqueles, que lutam por uma
Umbanda séria, esclarecida e verdadeira,
independente da linha seguida, lembrem – se das palavras de Oxalá
ditas linhas acima. Não desanimem com aqueles que vos criticam,
não fraquejem por aqueles que não têm olhos para ver o brilho
da verdadeira espiritualidade. Lembrem–se que vocês também
inspiram e enchem os Orixás de alegria e esperança. A todos, que
lutam pela Umbanda nessa Terra de Orixás, esse texto é dedicado.
Honrem –los.

OBRIGADO, AMIGO EXU




Marcone era homem de meia-idade e grande cultura geral,
produto de uma educação esmerada em colégios de
qualidade inequívoca, sob o alicerce fraternal de sua
família. Além de engenheiro, dedicava-se a estudar a doutrina
espírita kardecista com empenho sem-igual, a fim de estar sempre preparado a orientar os freqüentadores de um centro espírita, no qual exercia o cargo de presidente e principal palestrante.

Lapidado em conceitos ortodoxos que, ao invés de abrir-lhe os
horizontes da Espiritualidade, mais o faziam mergulhar em um
dogmatismo desenfreado, Marcone, durante as palestras que ministrava, quando indagado sobre questões pertinentes à Umbanda, utilizava-se quase sempre de expressões
depreciativas, asseverando que tal religião era constituída de
espíritos e práticas atrasados, e que pouco ou nada contribuíam para auxiliar os doentes do corpo e do espírito.

Sua vida transcorria normal, com a habitualidade de sempre,
alternando-se entre o trabalho, o convívio social e as reuniões
espíritas.

Certa ocasião, Carlos, seu filho de 10 anos, foi acometido de estado febril, acompanhado de pequenas convulsões. Preocupado, buscou auxílio médico, sem, no entanto, lograr êxito. Análises laboratoriais não apontavam qualquer tipo de infecção, bem como nada havia sido detectado nos exames cardiológicos e neurológicos.

Não deixando a medicina de lado, Marcone, como dirigente que era, passou a levar seu filho às sessões espíritas, na expectativa de que os amigos espirituais ajudassem na cura do bom filho.

Em determinada sessão, durante a leitura de nomes para irradiação, em cuja relação incluia-se o de seu filho, presente ali e muito debilitado, Marcone foi surpreendido pela incorporação de um espírito em um médium integrante da mesa. Como na casa espírita que dirigia não havia incorporações, mas tão somente mensagens psicografadas e inspirações espirituais, o engenheiro prontamente se aproximou do médium manifestado, reprimindo-o energicamente por alterar a linha de trabalho do centro.

No momento em que Marcone admoestava o médium em transe, o espírito que a este se acoplara, apresentou-se, dando boa noite aos presentes.
Disse que fora enviado àquele recinto para solucionar problema de ordem espiritual delicado que afligia certa pessoa da assistência, direcionando seu olhar para o menino Carlos. O dirigente, observando o comportamento diferente daquela individualidade espiritual, num misto de insegurança e arrogância,
inquiriu o espírito sobre sua procedência e nome. O amigo espiritual, fitando fixamente Marcone, disse-lhe que realizava trabalhos em outra corrente religiosa, declinando seu nome, que aqui trataremos apenas como Exu "A".

Ante a identificação, o pai de Carlos, tomado de profundo
preconceito, ordenou àquele espírito que reputava como sem-luz, que se retirasse e procurasse a evolução que Marcone supunha que ele, o espírito, necessitasse. Ante os apelos contundentes, o espírito aceitou retirar-se, dizendo, antes de partir, que o enfermo a curar carecia de cuidados urgentes, sob pena do quadro tornar-se irreversível.

Após a partida do espírito Exu "A", o diretor Marcone criticou
severamente o médium que tinha dado campo de atuação àquele espírito, exigindo maior atenção dali em diante.

Os dias passam e, apesar dos passes e água fluidificada ministrados em Carlos, o garoto jazia num permanente estado febril e periódicas convulsões, acrescido agora de ostensiva anemia, deixando-o num estado mental depressivo. Marcone já não sabia a quem recorrer, pois experimentara até a desobsessão, sem resultado algum.

Desesperado com a patologia de Carlos, Marcone, numa atitude
desesperada de pai, resolveu buscar auxílio no primeiro lugar que
encontrasse, fosse o que fosse. Saiu a perambular pela rua, entrando em quase todas as vias de seu bairro. Nada. Alcançou os limites de outro bairro. Nada.

Já desanimado e sem ter com quem contar, Marcone tomou o caminho do lar. Entrando em pequena viela que lhe facilitaria encurtar a distância, ao passar por uma pequena casa, ainda com tijolos à mostra, o pai aflito identificou o som que parecia ser de tambores. Sob a inspiração de seus guias, perguntou a um senhor de cabelos e vestimenta brancos que ali estava, o que funcionava naquele local. Foi informado, então, que se tratava de um Templo de Umbanda.

O engenheiro Marcone, constrangido, explicou à pessoa parada no portão que tinha, na família, pessoa que passava por sérios problemas de saúde, necessitando atendimento. Respondeu-lhe o humilde senhor que ele, Marcone, poderia trazer o doente, se quisesse, ainda naquele dia, pois a sessão estava em seu início.

Marcone pôs-se em fuga alucinada para a sua residência. Enrolou o filho em um lençol e, em companhia de sua esposa, rumou de carro para aquele endereço. Retornando à Casa Umbandista, foi levado, juntamente com Carlos e Leila, sua mulher, ao salão de trabalhos espirituais.

Incomodado com o barulho dos instrumentos de percussão, porém esperançoso na cura de seu filho, Marcone orou ncessantemente, pedindo auxílio diante da situação. Comandava as atividades o Caboclo que aqui chamaremos apenas de "Z". A certa altura da gira, esta entidade aproximou-se do casal e disse-lhes que iria atendê-los após o encerramento dos trabalhos que se realizavam, momento em que direcionou um olhar de amor para Carlos.

Duas horas se passaram até que a Entidade-Chefe desse por terminado o trabalho, solicitando a seu cambone que esvaziasse o terreiro.
Estando agora somente o Caboclo "Z", seu cambone, Marcone e sua família, o espírito solicitou ao engenheiro que levasse Carlos para as dependências externas da Casa e o deitasse num pequeno espaço de terra batida existente. Advertido
pelo Caboclo "Z" de que o êxito dos trabalhos a realizar dependeria também de sua fé e amor, Marcone, inquieto, via-se diante de situação que a doutrina de Kardec jamais o elucidara. O Caboclo "Z" disse-lhe ainda que o trabalho de cura ficaria a cargo de um outro amigo espiritual, devido o problema presente estar diretamente ligado à sua área de atuação.

Marcone, pensativo, limitava-se a ouvir aquela entidade simplória,
porém iluminada, dizendo-lhe esta que se afastaria do médium, mas estaria presente, auxiliando no que fosse necessário. Ato contínuo, o médium do Caboclo-Chefe foi tomado por uma outra entidade espiritual, que passou a cumprimentar os presentes. Marcone, sob forte vibração, notou que conhecia aquele olhar fixo. O tom de voz (psicofonia) não lhe era estranho. Não ousou questionar o espírito, que, de forma vigorosa, dava instruções ao cambone sobre como proceder.

Após os preparativos, o amigo espiritual expôs resumidamente a
Marcone que o pequeno Carlos achava-se em processo de obsessão, infligido por alguns desafetos do passado, e que o caso solicitava o concurso de medidas extremas para tal dissipação. Marcone encorajado a esclarecer-se sobre o fato, afirmou ao espírito que era dirigente de um centro kardecista e que lá havia sessões de desobsessão, consultando- o sobre a possibilidade do drama de seu filho lá ser resolvido. O companheiro de Aruanda explicou-lhe que, devido ao atual
estágio obsessivo de Carlos, a doutrinação dos desencarnados que o assediavam só surtiria efeito após a realização daquele trabalho.

Feitos os preparativos, a entidade atuante ordenou ao cambone que fizesse, na terra, um círculo que envolvesse Carlos e que colocasse, sobre seu traçado, material de grande fundamento dentro da Umbanda. Orientou os presentes para que guardassem distância e que orassem de olhos fechados. Estando todos a postos, a entidade que captaneava o ritual ordenou ao cambone que "puxasse" uma curimba de atração e condensação de forças positivas, repetindo-a por três vezes. Depois foi cantado um ponto de ação repulsora, momento em que o amigo do astral superior acionou a ignição do material no círculo mágico depositado.

Grande deslocamento de ar ocorreu, ao mesmo tempo em que se expandiam partículas de alto poder de corrosão. Ato contínuo, Carlos, então em estado torpe, foi acometido de grande agitação, que durou segundos, voltando depois ao estado de inércia inicial. Imediatamente, o espírito que comandava os trabalhos ordenou aos guardiões auxiliares que imobilizassem os obsessores (eram dois), e os encaminhassem à detenção astral, até segunda ordem.

Marcone, assustado com o cenário que até então desconhecia, notou, com velada satisfação, que Carlos abrira os olhos com brilho há muito não visto. Levantando-se do chão ainda debilitado pelo vampirismo dos obsessores, perguntou ao pai que lugar era aquele e o que tinha acontecido. Aproximando- se da família, o espírito benfeitor expôs que o perigo passara e que, embora naquele local se efetuassem trabalhos de doutrinação, ele, Marcone, mediante ordens superiores, poderia ministrar o devido esclarecimento àqueles espíritos detidos, em sua
casa espírita.

Visível felicidade cobria a face de Marcone e Leila, que observavam substancial melhora do filho. Distraindo-se em afagar Carlos, Marcone não percebeu que o espírito trabalhador já se afastara do médium. Não teve a oportunidade de agradecer e nem saber seu nome.

Perguntou ao dirigente daquele Núcleo Umbandista sobre quem era aquele espírito, no que foi respondido, em tom fraternal, que, o que importava naquele momento, era o bem-estar de Carlos.

Os dias correram e, com eles, a febre alta, a anemia e as convulsões. Carlos, o filho querido, já tinha vida normal e sequer demonstrava resíduos da patologia espiritual que o afligira. Marcone solicitou aos espíritos superiores que lhe dessem a oportunidade de receber em sua casa espírita aquelas entidades que outrora obsediavam seu filho.
Foi atendido, fazendo valoroso trabalho de conscientizaçã o e
regeneração junto aos ex-obsessores.

Durante uma sessão de estudos, em que todos os presentes se voltavam a esmiuçar as obras kardecistas, uma suave briza de fragrância agradável fez vibrar positivamente todo o ambiente. Marcone então teve suas atenções voltadas para um médium da mesa, cuja fisionomia denotava profunda mudança. O médium, agora incorporado por um espírito, saldou a todos, conclamando- os a seguirem os ensinos de Jesus.

O dirigente Marcone, sob forte emoção, identificou de pronto aquela entidade. Sabia agora que era a mesma que se manifestara pela primeira vez naquele recinto para ajudar Carlos, e que fora a se retirar. Tinha consciência também que era
o mesmo espírito que havia curado seu filho no Templo Umbandista.

Num incontido choro, aproximou-se daquele espírito pedindo perdão pelo preconceito e discriminação que o fizera passar.

A entidade espiritual Exu "A" envolveu Marcone em cristalinas ondas de luz, pedindo mais compreensão e menos radicalismo. Proferiu, ao dirigente espírita palavras de conforto e entusiasmo para as atividades espirituais. O engenheiro Marcone, percebendo que a entidade espiritual já se despedia dos presentes, num gesto de humildade e simplicidade, virtudes que permeiam os grandes de coração, fraternalmente disse ao espírito do Bem:

"Obrigado, amigo Exu!" Um Exu de Lei e verdade...

Exu e os dois amigos


Por ALEXANDRE CUMINO

Dois amigos se orgulhavam muito de sua amizade e lealdade, eram vizinhos.

Viviam bem, mas não fa­ziam oferenda a Exu.

Certa tarde, se encontravam os dois, como de costume,

conversando nos limites de sua propriedade, quando Exu passou por entre eles, usando um chapéu metade branco e metade ver­melho.

Estranhando aquela figura entre eles, um comentou com outro:

- Muito estranho aquele homem de chapéu vermelho.

- Chapéu vermelho, não. O chapéu era branco.

E assim passaram a discutir a cor do chapéu entrando em briga e inimi­zade.

Muitas vezes Exu parece ser "o espírito de porco" na mitologia nagô-yorubá, mas o que não nos damos conta é que ele vem para mexer e cutucar o nosso ego.

O fato dos homens não fazerem oferenda a exu diz muito a seu respeito, pois quem não oferenda exu, não oferenda a nin­guém, que passa uma idéia de auto-suficiência com relação ao sagra­do.

Exu nos lembra o tempo todo que vivemos em sociedade e precisa­mos uns dos outros, para um bem viver, já que o ser humano é um ser relacional, que não existe fora da malha dos relacionamentos.

Por isso, se diz que "na Umbanda, sem Exu não se faz nada", o que não se limita a ele apenas, pois é Exu que abre a porta de comunicação deste mundo para outro mundo, entre o ayê (a terra) e o orun (o céu).

Quanto aos dois amigos, o orgulho de uma amizade tam­bém pode ser elemen­to da vaidade humana

que é colocada em xeque quando é ques­tionada a verdade de cada um.

Estar certo ou ter razão segundo o ego de cada um muitas vezes é colo­cado acima da har­monia do conjunto.

Não precisamos apenas de Exu... vivemos em sociedade e é isso que Exu ensina.

Precisamos todos uns dos outros...

Quanto às lendas, são metáforas e cabe a nós,

interpretar e compreender o seu simbolismo.